sábado, 28 de abril de 2012

Cachoeira tentou assediar secretário


Correio Braziliense (DF) - 27/04/2012

ANA MARIA CAMPOS
Bicheiro articulou encontro com titular de Transportes do GDF para entrar no mercado de bilhetagem eletrônica
Interceptações telefônicas da Polícia Federal (PF) na Operação Monte Carlo indicam que o grupo liderado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira tentou diversas vezes um contato com o secretário de Transportes, José Walter Vasquez, em busca do milionário negócio de bilhetagem eletrônica no Distrito Federal. Continua...
As escutas foram a base da Operação Saint-Michel, deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) na manhã da última terça-feira, que provocou a prisão de quatro pessoas, entre as quais o ex-diretor da Delta Construções para o Centro-Oeste Cláudio Dias de Abreu, um dos alvos da CPI do Cachoeira no Congresso. O paradeiro de um outro executivo da empresa, Heraldo Puccini Neto, que também teve a prisão preventiva decretada, era desconhecido até o fechamento da edição na noite de ontem.
Num dos diálogos interceptados pela PF, Gleyb Ferreira da Cruz, apontado como um dos mais próximos assessores de Cachoeira, conversa com o contraventor sobre agendar um encontro com Vasquez. Eles se referem a Milton Martins de Lima Júnior, diretor-administrativo do DFTrans como um aliado, mas comentam que ele não estaria conseguindo marcar o compromisso com o secretário de Transportes para que pudessem conversar sobre a licitação para bilhetagem eletrônica. "O Milton não tem poder de decisão, ele tem poder de sugestão, mas quem decide é o secretário junto com o governador", diz Gleyb reforçando a necessidade de uma aproximação com o secretário de Transportes.
A intenção do grupo, segundo investigação da Operação Saint-Michel, conduzida pelo Núcleo de Combate às Organizações Criminosas (NCOC) do MPDFT, era conquistar o negócio, avaliado por eles em R$ 60 milhões por ano, e entregá-lo a uma empresa coreana, a EB CARD, ou promover uma parceria entre esta e a Delta Construções. O secretário de Transportes confirmou ao Correio ontem que, de fato, quase marcou duas vezes uma reunião com uma empresa coreana, a pedido de Valdir dos Reis, um dos presos na Operação Saint-Michel.
Valdir conheceu José Walter Vasquez quando ambos trabalharam próximos no Governo do Distrito Federal em 2006. "Ele é uma pessoa agradável, considerada competente. Nós nos conhecemos quando eu fui secretário de PPPs (parcerias público-privadas) e o Valdir era assessor do então secretário de Planejamento, José Naves", conta o secretário. "No ano passado, o Valdir me pediu duas vezes para marcar uma reunião com uma empresa coreana. Cheguei a marcar, mas nunca aconteceu. Ele dizia ter um pessoal com preço competitivo e experiência", acrescentou.
Vasquez afirma que nunca houve da parte de Milton Martins, um dos investigados na Operação Saint-Michel, pedido de aproximação com empresas interessadas no contrato. "Tive com Milton sempre conversas técnicas", afirma o secretário. A licitação para bilhetagem eletrônica deve ocorrer ainda neste ano, depois que o governo do Distrito Federal finalizar a concorrência para concessão de linhas de transporte coletivo. Além de Valdir e dos dois diretores da Delta Construções, tiveram a prisão preventiva decretada Dagmar Alves Duarte, apontado como lobista, e o vice-presidente da Câmara Municipal de Anápolis, vereador Wesley Silva (PMDB), aliado e amigo de Cachoeira.
Tentáculos
De acordo com a investigação, eles também estariam trabalhando em benefício do esquema liderado por Cachoeira com o objetivo de expandir os negócios no Distrito Federal. A Delta Construções já tem o contrato de coleta de lixo na capital do país. Todos os que foram presos na Operação Saint-Michel conversam entre si. Os diálogos captados pela PF indicam que Gleyb teria combinado um pagamento mensal de R$ 6 mil a Valdir dos Reis para que ele ajudasse o grupo. Teria havido uma negociação com valor estipulado em R$ 10 mil. De acordo com as investigações, Valdir também teria um carro à disposição, além de gasolina para o trabalho.
Além das prisões, a Justiça determinou também o cumprimento de mandados de busca e apreensão nas casas e nos endereços de trabalho de todos os investigados, entre os quais a diretoria administrativo-financeira do DFTrans. Foram cumpridos mandados em Brasília, São Paulo, Anápolis e Goiânia. O ex-diretor da Delta Cláudio Abreu e os demais investigados estão juntos numa cela no Departamento de Polícia Especializada (DPE) e devem ser transferidos hoje para a Papuda. Heraldo Puccini era considerado até ontem foragido.
O diretor-geral da Polícia Civil, Jorge Xavier, disse ontem que sua equipe não está atrás do executivo porque ele tem endereço em São Paulo e o cumprimento do mandado de prisão não está sob a competência da Polícia do DF. De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério Público do DF, o mandado de prisão da 5ª Vara Criminal de Brasília contra o executivo da Delta deve ser cumprido pela Polícia Civil do DF, mas policiais de outra unidade da federação também poderão prendê-lo.
"O Milton (diretor do DFTrans) não tem poder de decisão, ele tem poder de sugestão, mas quem decide é o secretário"
Gleyb da Cruz, falando sobre a bilhetagem eletrônica em contato com Carlinhos Cachoeira
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